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Conspiração

Pela primeira vez, um nordestino chegava à presidência da República. Quarenta anos depois de deixar o sertão pendurado num pau-de-arara, aquele pernambucano atarracado havia conquistado a simpatia de mais da metade da população nacional e, com seus votos, havia chegado ao posto máximo da política tupiniquim.

Para ele, porém, isso era pouco, muito pouco. Apenas um passo, importante, é claro, para atingir seu verdadeiro objetivo. O pernambucano atarracado deixou para trás sua terra seca mas trouxe para o Sudeste sua memória cariri e, apegado a ela, teve forças para suportar os mais duros golpes, físicos e morais, aplicados por uma sociedade preconceituosa. Teve momentos de fraqueza, chegou a trair seus ideais por um breve instante, e foi punido por isso, da mesma forma que traidores de outras organizações também são punidos: foi mutilado pela Conspiração. Mas suportou e persistiu.

A cada dia, a cada amanhecer, dedica uma prece a Frei Raimundo, mentor e padrinho, e refaz mentalmente sua trajetória, começada com o sofrimento dos quatro mil quilômetros percorridos na carroceria do velho caminhão Ford, ícone de um império. Mas não era contra esse império que o pernambucano conspirava. A cada dia, verifica se nenhum deslize foi cometido na trajetória.


Há decadas desembarcam no planalto paulista milhares de nordestinos, despejados no Glicério, no Tietê, na porta de agências de viagens clandestinas. Todos movidos pelo mesmo ideal, pelas santas palavras de Frei Raimundo, mentor e padrinho de todos. Esparramam-se pela capital num emaranhado de sotaques que só eles conseguem distinguir - cearenses, alagoanos, paraibanos, potiguares, sergipanos, pernambucanos, piauienses e até alguns maranhenses. Poucos baianos e norte-mineiros também aderem à Conspiração.

Empregam-se resignados em atividades que pouco têm a ver com suas habilidades naturais do trato com a terra - vão ser empregados domésticos, porteiros, pedreiros, cobradores de ônibus. A sociedade local considera que estão sendo humilhados mas, fortes, sabem que a humilhação é transitória, e não lhe dão importância. Há décadas os nordestinos se infiltram na vida paulistana e dão a ela novo colorido - são até citados por políticos como os verdadeiros responsáveis pelo progresso da metrópole. Eles sabem que é bajulação barata e seguem seus destinos, suas orientações e palavras de ordem.

Diariamente recebem instruções e mensagens de ânimo de seus líderes. Informações subliminares plantadas em letras de forrós simplistas, na voz de locutores de rádio e até na forma de coçar o ouvido com a unha mais longa do dedo mínimo. E os paulistas nada percebem. Preocupados com o ciclo de ganhar mais para gastar mais e ganhar mais, ignoram a Conspiração que acontece ao seu lado, nos bancos do Metrô, nos espetinhos de gato das esquinas e nos discursos inflamados de pastores que falam ao microfone, mesmo que suas pequenas igrejas, instaladas em pequenas salas comerciais, estejam quase vazias. Ninguém percebe nada, ninguém desconfia de nada. Ah, esses cabras da capital... tão espertos.

Mas o dia da Conspiração está próximo. O pernambucano atarracado deixará o palácio distante e marchará para a cidade símbolo do movimento. Em São Paulo, assumirá a cadeira que pediu para uma amiga, fiel à causa, ficar esquentando. E a multidão não precisará de aviso. Centenas de ônibus partirão do Jardim São Luiz, da Cidade Ademar, do Caxingui, de Guaianazes, de Pirituba e de tantas outras células do movimento, rumo ao centro da cidade. Ali, no Vale do Anhangabaú, se reunirão, pacificamente, para ouvir as palavras do líder. O pernambucano atarracado, braço direito do líder, fará o discurso de congregação e chamará ao palanque montado no Viaduto do Chá seu mentor, seu padrinho, Frei Raimundo. E a multidão de Soldados do Sol saberá que esse será o momento da ação. Em segundos, todas as cidades do interior do Estado serão dominadas e os nordestinos terão, enfim, concretizado o sonho que Frei Raimundo narrou no pé da Serra do Araripe, naquela manhã seca, dia de São José, há mais de cinqüenta anos. Seu povo terá, enfim, terra fértil para plantar, na declarada Comunidade Popular Nordestina, e Frei Raimundo poderá, enfim, descansar em paz, ouvindo as gravações originais do velho Lua, em LPs de 78 rotações, em sua casinha humilde, num subúrbio de Aldeia da Serra.



 Escrito por Weberson às 14h04 [] [envie esta mensagem]



SÉRIE RESTAURANTES - 2

Quarta-feira. Nove e quinze da noite. Os garçons olham para a porta com certa insistência - alguns clientes percebem. Ele nunca havia se atrasado mais de dez minutos.

Nove e dezesseis. Ele entra, os garçons se tranqüilizam. Há quase quatro anos ele chega às nove, todas as quartas. Dá uma olhada ampla pelo salão, procurando mesa, e se senta na oito. Todas as vezes. Se a oito está ocupada, ele disfarça, fala sobre futebol com o maitre e dá um tempo até a mesa vagar.

Tirando o atraso, desta vez aconteceu tudo igual. Ele entrou, deu uma olhada ampla pelo salão e caminhou para a oito. Há quase quatro anos ele faz a mesma coisa. Chega às nove da noite, ou um pouco mais, no máximo com dez minutos de atraso. Vai para a mesa oito e se senta. Um dos garçons lhe oferece o cardápio. Todas as quartas-feiras os garçons resolvem no palitinho quem vai levar o cardápio para ele. Os novatos mal conseguem segurar o riso. Ele pega o cardápio, lê de ponta a ponta, se concentra nas sobremesas e pergunta qual a sugestão do chefe para o dia. O garçom, que espera do lado, recita o prato do dia. Ele olha para o vazio, pensa por alguns segundos, volta a ler o cardápio e pede uma brotinho de aliche e uma água sem gás, sem gelo. Mas hoje será diferente. Pelo menos foi o que Souza disse aos colegas quando notou o atraso dele.

Souza chegou de Goiás há três anos. Indicado por um primo, trabalhou como copeiro numa padaria durante oito meses, até que um freguês, dono do restaurante ao lado, o convidou para ser garçom. Uma semana depois Souza já atendia no salão. Inseguro no começo, parecia dançar com a bandeja entre as mesas. Sua primeira quarta-feira foi de sorte. Pelo menos foi o que os outros garçons disseram quando tirou o palitinho menor.

Desta vez Souza não riu como há pouco mais de dois anos. Novamente sorteado, levou o cardápio e esperou. Ele leu todos os pratos, das entradas às sobremesas. Passou o indicador de cima para baixo, do pêssego em calda até o sorvete de creme. Com o canto do olho, observou se Souza prestava atenção. Virou para o lado e perguntou a sugestão do chefe. Musse de abobrinha, risoto piemontês, escalopes. Souza caprichou na descrição do risoto piemontês. Discorreu sobre a cremosidade, a textura, a sutileza do sabor marcante. Desta vez Souza tinha certeza de que ele mudaria o pedido.

Pouco antes de deixar Goiás, Souza havia passado por experiências premonitórias. Pelo menos foi o que o padre disse, quando ouviu os relatos de visões de coisas que viriam a acontecer dias depois e dos dois jogos premiados na loteria. Souza era um vidente e, desta vez, sabia que ele mudaria o pedido. Assim como também sabia que seria o sorteado do dia.

Acabando de ouvir a descrição do risoto, ele olhou para o lado, pensativo. Souza sentiu a pulsação acelerar. Ele voltou para o cardápio e virou-se novamente para o garçom, que esperava apreensivo. Uma brotinho de aliche e uma água sem gás, sem gelo.



 Escrito por Weberson às 23h30 [] [envie esta mensagem]