Que barulho é esse? Campainha? Alarme? Telefone? Ele nunca havia ouvido isso antes. Interfone. É a primeira vez que toca o interfone do apartamento. E olha que ele já mora no prédio há um bom tempo. Nunca recebe visitas. Nem a irmã.
Alô? Professor, tem uma dona Elisa aqui. Elisa? (pausa para pensar nos motivos que levariam Elisa ao seu apartamento. Alguma coisa grave, urgente. Nem ligou antes. Estranho). Ok, pode subir.
Elisa é amiga quase de infância. Se conheceram numa festinha de aniversário, daqueles primeiros bailinhos. Quase ficaram. Na época ainda não se ficava. Conversaram um pouco, começaram a se interessar um pelo outro e quase dançaram. Augusto chegou antes e foi ficar de rosto colado com ela. Alguém apagou a luz.
Ele espera Elisa na porta do apartamento. Pé direito apoiado no batente, posição de ponto de ônibus. Velha jaqueta de couro. Um cigarro na boca e seria James Dean. Mas ele não fuma. Parou ainda durante a faculdade. Alguns segundos e ele ouve o elevador se aproximando. Pin. Oi, Eli, que surpresa. Tudo bem? Dois beijinhos.
Enquanto ela percorria os dois metros que os separavam, ele pensava no dia em que quase foram ao cinema. Se encontraram na rua, por acaso, olhando a vitrine de uma loja de vinhos. Dois beijinhos, e aí, tudo bem? O que tem feito? Tá indo pra onde? Cinema? Eu também. Que filme? Legal, posso te acompanhar? Ainda na hora da pipoca o celular dela tocou. Que pena, preciso ir. Uma paciente está sentindo as dores. Tudo bem.
Sua irmã tá aí? Ah, saiu, você queria falar com ela? Não, não, é com você mesmo. Riso quase tímido. Entra. Dá licença. Senta aqui. Brigada.
(um, dois, três, quatro segundos de constrangimento). E aí? Os dois juntos. Risos. Queria te falar uma coisa, desculpe não ter ligado antes. Tudo bem, o que é? Algum problema? Não, não... nenhum problema. Tem uma água? Claro.
Gelada ou sem gelo? Misturada. Fala, você está parecendo nervosa. Não, não, imagina. Nada demais. E aí, como vão as coisas? Trabalhando, né? Como sempre. E a pós? Parei, estava sem grana.
(um, dois, três, quatro, cinco, seis segundos)
Ele começou a achar que era assunto de morte. Algum amigo comum, quase de infância, deve ter ido pro beleléu. Ela é médica, deve ter recebido a notícia antes e veio me avisar. Por isso está nervosa, sem coragem.
Mais água? Não, obrigada. Sabe o que é? Queria te fazer uma pergunta. Pode fazer. (Se é pergunta, não tem defunto).
Os encontros entre os dois não eram raros, nem freqüentes. Tinham uma quase intimidade, sabiam da vida pessoal um do outro, mas nada íntimo. Também nem tinham tanto assunto assim para uma visita inesperada, para chamar pelo interfone, que nunca havia tocado.
Elisa sabia que ele não mentiria. Todo mundo comenta que ele nunca mente e, por isso, de vez em quando se dá mal na vida. Vira um pouco o braço e quase derruba o copo da mesinha. Risos. Tudo bem, vai na lata, vou perguntar.
- Você gosta de mim?
(cinco, dez, quinze segundos, ele levanta, senta, não sabe o que dizer, se deve dar uma resposta prática, resolve mentir, muda de idéia, ri nervoso, olha pra ela e quase responde na lata, ganha tempo) Que pergunta é essa?
Ela esconde o rosto - ai que vergonha, não devia ter vindo aqui, mais risos. Ele cria coragem e muda de lugar. Cabem dois no sofá pequeno. Ela entendeu a resposta, mas queria ouvir, e ficou olhando nos olhos dele, esperando uma resposta prática, mesmo que ele não dissesse nada.
Ele prefere falar - você sabe. Não, não sei, quero saber, por isso vim perguntar. Faz dias que estou ensaiando. Ele chuta a mesinha e o copo vai pro chão. Tinha tudo para cena romântica e vira pastelão. Quase sem parar de rir, ela reforça, já descontraída - e aí, gosta? Gosto. Na lata. Gosto muito.
(quinze, trinta segundos de contemplação, olhos úmidos, os quatro)
Mas a gente sabe que não dá, né? É, a gente sabe. Mas e aí? Nem faço idéia. (tudo mais lento) Não devia ter perguntado. Devia, sim, claro, senão a gente nunca teria certeza. É, a gente tinha quase certeza. É, quase. E agora? Me dá um beijo? E ele responde na prática.
Amigos comuns, quase de infância, acham que eles namoraram em segredo. Afinal, tinham tudo a ver um com o outro. Mas eles nunca tiveram coragem. Se não puderam antes, agora menos ainda. Cada um, cada vida. As coisas, trabalhos, relacionamentos. Foi um beijo demorado, no sentido de demorado para acontecer. Rápido, no sentido prático. Meio atrapalhado. Motivo para mais risadas e um longo, demorado abraço.
(cinco segundos)
Preciso ir. Já? Tenho uma consulta daqui a pouco. Ah. A gente se fala. É, me liga. Quer dizer, volta. Não sei. Vamos marcar um cinema? Sim, vamos. Como amigos? Claro. Tá, a gente se fala. Tchau.
Chega o elevador. Troca de olhares. Ele tenta dar um selinho. Ela escapa. É, não dá. Quase.
Enquanto Elisa aperta o botão errado e sobe em vez de descer, ele se vira e espatifa o nariz na porta, que calculava ter deixado aberta.
Escrito por Weberson às 13h39
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SÉRIE RESTAURANTES - 1
Já faz muito tempo que saí em viagem pelo Brasil. Naturalmente, perdi a conta dos quilômetros percorridos e da quantidade de cidades e lugarejos visitados, principalmente se levarmos em consideração que raramente percorro uma trajetória linear. Esses caminhos passam pela mesma localidade repetidas vezes, pelo simples motivo que, se estou em um ponto e sinto vontade de ir a outro, vou, sem me preocupar se é perto ou de fácil acesso. Porém, quando acontecem estas interseções, tomo todos os cuidados para apenas circundar as cidades, jamais atravessá-las. É inadmissível revisitar um local, assim como reler um livro ou rever um filme. Lembro que quando saí para viajar tinha 14 ou 15 anos. Antes disso nunca havia deixado o bairro.
Não que considerasse os muros em volta do bairro uma barreira, nada disso. Apenas não tinha vontade de sair. Os muros, vazados a cada 150 metros por grandes portões abertos, com placas de "volte sempre" eram, na verdade, um convite para aventuras, com a certeza de um porto seguro no retorno. Pensando bem, uma vez, acho que só uma, pensei em viajar antes disso. Cheguei até o portão oeste, quando me dei conta de que não tinha dinheiro para o ônibus e me resignei. Agora, também, não tenho um centavo.
A andança é custeada com trabalhos prestados pelo caminho. Pedir carona, nunca. Aceitar comida grátis, nem pensar. E você deve imaginar como é difícil conseguir trabalho quando se é forasteiro. Já aconteceu de passar quase um ano na mesma cidade me abastecendo de recursos para próximas etapas, evitando o risco de seguir viagem e não encontrar outro bar ou restaurante que estivesse precisando de um lavador de copos. Sim, esta é minha profissão. Aprendi cedo. Existe muita resistência por parte dos empresários em contratar um lavador de copos, principalmente se for um desconhecido, sem referências. Quando precisam de um lavador de copos, recorrem a generalistas que também lavam talheres, pratos, até panelas. Não faço isso. Tenho uma reputação profissional a zelar - sou lavador de copos, o melhor. Mas não digo que sou radical - por força da necessidade, já cheguei a lavar e enxugar xícaras durante alguns dias, mas o proprietário da cantina deve ter notado que aquela não era minha especialidade e me dispensou. O dinheiro só foi suficiente para uma passagem de ônibus até a cidade vizinha.
Escrito por Weberson às 18h01
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Pensando bem...
Porque, das coisas que têm acontecido, a única diferença é o exagero proeminente das curvas que se acentuam cada vez mais. Em vez disso, ao contrário, a fuga recorrente dos ossos que escapam pelos veios da lama só pode levar a um caminho: a corrente atravessada pelo pescoço da vítima. Prova inconteste de que o mundo é gerado pelas coisas que têm acontecido.
Escrito por Weberson às 17h52
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