Questionaram, logo abaixo, num comentário, por que será e
qual a razão do motivo que leva as meias finas a desfiaram momentos antes de
compromissos. Ora, essa. Tenham comiseração. Difícil crer que em pleno
desabrochar de milênio, momento em que as conjeturas dos astros nos fazem pensar
num tempo repleto de livros de auto-ajuda, ainda haja alguém, único ser apenas,
que não tenha compreendido a essência visceral e elemental, portanto
transcendental e feudal, dessa questão que foi o cerne de inúmeros e inomináveis
embates verbais do fin de siècle que se encerrou há pouco, especificamente no
âmbito do enxergamento à distância, latinisticamente versado para televisivo.
Sim, esclareço para esta mente inquieta e indagante: as meias Vivarina não
resistiam ao furioso ataque das facas Ginsu.
Cientificamente falando, as meias finas, sejam elas
de seda ou polietileno, dispõem de um dispositivo disposto entre cada
entrelaçamento capilar dos fios que se cruzam na filigranítica malha do tecido
que as compõe.
Tal dispositivo, dotado de minúsculos sensores, estabelece uma rede neural
que desloca informações em altíssima velocidade por toda a extensão das meias,
até o ponto em que tais informações possam ser captadas pelos, ou melhor, possam
se chocar com as ondas senoidais provenientes do cérebro.
Como todos sabem, as sinapses emitem ondas com uma freqüência de alcance
limitado, podendo chegar, normalmente, até a cintura do indivíduo, assim como as
redes denteazul. Em casos excepcionais, podem chegar aos joelhos, mas foram
relatados raríssimos casos assim na literatura especializada, geralmente
associados a altas concentrações de zinco no organismo.
Pois bem, como é de nosso feitio, vamos ser breves. O cruzamento das
informações do cérebro com as que percorrem longitudinalmente a trama das meias
(socks data connection) terminam por criar um campo energético ao redor do
indíviduo que permite o contato direto, quase imediato, do córtex com a
panturrilha revestida de nylon.
Tal campo energético, às vezes, é tão poderoso que consegue vasculhar os
arquivos futuros do cérebro, região normalmente só atingida por outra energia, a
sensorial, de futurólogos em geral.
Resumindo, porque não pretendo ser cansativo na explanação, o lado escuro dos
miolos informam às meias o que está por acontecer horas depois. Se a situação
assim o exigir, as meias podem disparar o processo de autorretalhação (explico
isso outro dia) em segundos.
Exemplificando, são comuns os casos em que as meias serão usadas durante
enfadonhas reuniões. Nessas situações costumam surgir pequenos desfiamentos para
que o vestinte se distraia fazendo bolinhas na perna, enquanto finge atentar
para as prosopopéias verborrajadas pelos correunidos.
Em outro extremo, quando há evidência de sexo no encontro vindouro, as meias
têm o hábito de se abrir em rombos, facilitando as ações e manipulações
vindouras. Em caso de frustração dos atos, as meias podem provocar arrombamentos
nas áreas mais visíveis, como forma de constranger o, ou a, usuário, ou
usuária.
Meias finas podem ser usadas até como máscaras de invisibilidade. Ao se
colocar uma delas na cabeça, o choque de dados faz com que seu portador acredite
não estar sendo visto, dispondo-se então a atividades muitas vezes ilícitas.
Meliantes modernos, contudo, têm abandonado o expediente por não o considerarem
100% seguro.